quarta-feira, julho 12, 2006

Normalidade

NORMA

MAL

DA

IDADE.

terça-feira, julho 11, 2006

Estrela do mar


Olharam-se.

Foi um olhar material, como se os raios invisíveis emitidos por cada um se misturassem no ar, fundindo-se, encorpando-se, tornando-se palpáveis. E ao olhar mútuo seguiu-se o sorriso, também de parte a parte.

Começou assim. Estavam ambos num país desconhecido, num universo distante de suas vidas, por motivos diferentes, que não tinham qualquer importância.

O olhar foi mútuo, mas foi ela quem se aproximou. Era talvez mais atirada do que ele. E o olhar e o sorriso se transformaram em palavras. Estavam à porta de um ônibus de excursão, cercado de uma algaravia de diversas línguas, e aquela massa de sons estranhos se fechou em torno deles como se os abraçasse, indulgência plena que lhes era anunciada. Sabiam que aquele era um território neutro, onde tudo poderia acontecer.

Na praça, o cheiro de iguarias exóticas impregnava o ar. Mulheres de turbantes coloridos conversavam num dialeto desconhecido, com estalares de língua que pareciam falar de sabores, gostos. Eles acharam graça naquilo. Só eles, ninguém mais.

Sorriram.

Em torno, as construções tinham em suas paredes o tom ocre do deserto, e as janelas em arco deixavam entrever pedaços de vidas, histórias, na penumbra das casas. A praça fervilhava de gente e, em meio aos temperos e hortaliças, vendiam-se também bugigangas, antiguidades, pratarias, panelas. Aquele universo caótico os convidava. Misturados à multidão, deixaram-se arrastar pela torrente de sons, cores, formas, distanciando-se do grupo.

Tocaram-se.

Suas mãos amoldaram-se uma à outra, dedos, pele, palma que pareciam fundir-se como haviam feito pouco antes seus olhares. Aquelas mãos tinham uma história própria, uma história sábia, antiga, independente deles. Não se largaram mais.

Entrelaçadas, as mãos levaram-nos a passear pela feira, pela praça, pelas ruelas em torno. Entrelaçadas, conduziram-nos de volta ao ônibus, de onde saltariam depois. Naturalmente juntas, levaram-nos através da porta do hotel e escadas acima – para o quarto.

Amaram-se.

Amaram-se sabendo – tinham perfeita consciência disso, o tempo todo – sabendo que seu amor estava circunscrito àquela hora e lugar, que uma vez cessado o momento seria impossível tentar revivê-lo.

Sabiam.

Tentar seria um erro. Fora dali, aquele amor seria uma estrela-do-mar, que brilha como prata contra a areia do fundo, mas que, retirada da água, perde o viço, a cor, o brilho – morre em nossas mãos.


............. Heloísa Seixas

domingo, julho 09, 2006

Essa vontade que não passa ...


".. queria te dar um beijo, queria saber mais de você ..
que é que tem se te desejo, se não posso mais te esquecer ? "

Já não consigo controlar
a vontade de te encontrar.
Se isso foi o que nos aproximou,
agora é o que não posso revelar!
Na confusão das palavras
não lembro mais o que foi dito -
o que está claro!
Por enquanto..
só essa vontade que não passa ..
.. esse cheiro ao meu redor ..
.. vestígios de sua presença ..
.. pensamentos fora de ordem ..
Por enquanto ..
o abismo entre os corpos,
a boca seca,
a garganta presa,
o vinil fora da vitrola
e essa vontade que não passa ..

..................Renata Mar

Borboletras



::::::: Avelino Araújo, natural de Patu (interior do RN) desde 1979 produz poesia visual / experimental / intersemiótica.

sábado, julho 08, 2006

(Des) Aparecida

Distraída. Desapegada.

Desconsolada e descontrolada.

Desafiadora. Despreparada.

Desinformada.


Destruidora, desmotivada.

Descontente e desconfiada.


Desaparecida desde quinta.

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Renata Mar

sexta-feira, julho 07, 2006

Esta que chegou em minha vida ..


Esta que chegou em minha vida sem que eu soubesse de onde vinda, tramou flores em meus cabelos, me vestiu de mim e me despiu dos outros. Esta que arrombou meus armários, veio pelo atalho de um caminho que eu nem sequer conhecia e enquanto amanhecia livrava meus pés dos espinhos para que eu seguisse viagem. Esta que fala com minha boca e impregna-me de sua voragem, veio me encontrar e me mostrar como me perder, veio me fazer tecer mil teias para me enredar e adormecer. É linda e tem olhos sem fundo, boca de dragão, tem fome de mundo, peito cheio de asas e tambores, seios plenos de promessas e está prestes a rebentar de luz e espanto.

Eu cheguei em minha vida sem que soubesse de onde vinda nem porque demorei tanto. Então a vida me mandou flores.

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Um suspiro e o ar do mundo todo me pertence e cabe em mim uma desmesura de limites, um abarcar de firmamentos, uma envergadura de oceanos. Trago o cheiro de todas as marés que te lamberam os pés, de todas as luas que pratearam tua pele, de todos os sóis que teus olhos já viram. Sou eu e todas as mulheres, reinventada a cada instante maior, mais bela, mais ampla. Em mim cabem eu e todas as coisas porque eu me invento e desinvento cada vez que meus olhos piscam e enxergam um mundo vasto, mais vasto, mais vasto ainda. Há assombro e espanto nas pontas dos meus dedos e sorrio um estilhaçar de felicidade. Já não me pertenço, nem me oriento. Sou toda amplidão.

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Ticcia

quinta-feira, julho 06, 2006

E por que haverias de querer minha alma na tua cama?

"E por que haverias de querer minha alma na tua cama? Disse palavras liquidas, deleitosas, ásperas obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia. Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias de querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me."

........ Hilda Hist .................

quarta-feira, julho 05, 2006

Tema da auto-ajuda

Só visite quem quiser

Não diga o que não quer

Não precisa traduzir

Tudo o que não entender

Só beba o que gostar

Transe quem você querer

Peça o que necessitar

Ajude a quem merecer

Seja o que tiver que ser

Ninguém manda em você

Só goste se esse alguém

Gostar e sentir também

O que tem para falar

O que tem para fazer

Cobre o que te pertencer

Não dê o que não é seu

Mostre o que de melhor tem

Sendo o que você quer ser

:::::: Jordan Santiago

terça-feira, julho 04, 2006

Numerologia

Dezenas de palavras

declaradas,juradas,

anunciadas.


Centenas de atos

interpretados, forjados,

retalhados.


Milhares de idéias

surgidas, meditadas,

esquecidas.


Bilhões de coisas

inexpresivas, imaginadas,

inesperadas.


Infinito

desconhecido -

tudo que pode

existir no mundo!


............................. Renata Mar

sábado, julho 01, 2006

Ainda é perfume o que vai começar e que nunca terá fim




Conheço teu passos

e a força do abraço,
O desejo contido
O fogo que queima
as entranhas da alma.
Sozinha na cama

rolando no espaço..
quem pode julgar?
Só sei que te quero
e que um dia virás
pra me acalentar.

::Ruth Troiano::